domingo, 16 de setembro de 2018

Trauma.


Estava internada há talvez um semana, quando uma enfermeira se dirigiu a mim e me comunicou:
- "Amanhã vais por a "coroa". Está ali a D. Joana para te arranjar.
Não percebi muito bem ao que ela se referia, mas achei que seria bom, quanto mais depressa fosse operada, mais depressa iria para casa.
Numa sala contígua à enfermaria 18, esperava-me a D. Joana de semblante carregado como era apanágio seu. A D. Joana era uma mulher pequena, curvada, de óculos que não esboçou o mínimo sorriso. Mandou-me sentar num banco que já ali estava preparado. Obedientemente sentei-me de costas para ela, tal como ela tinha dito.
Num ápice tinha uma das suas mãos a agarrar-me um pedaço de cabelo, e na outra uma máquina que começou a percorrer a parte frontal da minha cabeça, qual cortador de relva...
Comecei a gritar, suplicando-lhe que parasse. Tentei com a pouca força que tinha agarrar a máquina... tudo foi em vão, ela parecia possuída por uma força demoníaca, continuando o seu trabalho sem esboçar o mínimo de dó.
Os meus gritos devem -se ter ouvido a léguas de distância, porque de repente apareceu a enfermeira Luísa esbaforida e pediu-lhe que parasse.
Oh meu Deus, que alívio senti, apesar de estar a 500 km de casa e não ter os meus pais por perto, alguém me tinha vindo tirar das mãos daquela louca.
Como é óbvio, eu tive mesmo que rapar o cabelo, mas antes, por sugestão da enfermeira Luísa, fiz 5 tranças para oferecer às pessoas que amava.
A minha mãe, guarda religiosamente a trancinha que lhe ofereci em 1984...eu pus a coroa no dia seguinte e desde então nunca mais consegui ter o cabelo curto.
Esta imagem foi retirada da net, da página do Dr. Alexandre Fogaça apenas para mostrar o que era a coroa.

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